quarta-feira, 24 de março de 2010

Ich Finde Dich




O céu nublado quebrava seus pensamentos em memórias ocultas. Nenhum ruído, nenhum sinal, nenhum rastro de que algo acontecera por perto. Sentia-se eufórica, sem rumo. Queria de qualquer forma encontrar algo que lhe tirara o fôlego do peito. O vazio apertava cada vez mais seu coração. Quanto mais corria, mais queria correr. Seu vestido branco de noiva destacava-se entre as árvores secas e as folhas caídas do outono. As louras mechas de cabelo restantes do penteado arruinado esvoaçavam ao vento frio. O batom vermelho sangue já não brilhava mais como vinil. O delineador borrado em seus olhos retratava o desespero e a melancolia de sua interminável busca. Calçando apenas a meia fina, ela já mal se lembrava que o solo estava úmido. Já não sentia mais os gravetos e pedras no caminho. Somente árvores à frente. E mais árvores. Algo acerta subitamente sua cintura. Uma parada repentina. Árdua queimação, a dor de segundos, o corte profundo. O delicado cetim tornou-se uma tela de pintura nas quais o vermelho predominava. Levou a mão até o ferimento e sentiu a extensa fenda em seu vestido. Olhou então o escarlate em suas mãos...Tentou se lembrar de algo, mas nada lhe vinha à mente. Somente uma vontade imensa de estar em algum lugar que não ali. Olhou para trás, para os lados. Não havia um caminho. Não havia rumo. Não havia nada. Mas mesmo assim a floresta lhe trazia a vontade de procurar por algo que preencheria sua razão faminta de encontrar aquilo que lhe tomara a mente. O rasgo em sua pele não era forte o suficiente pra lhe fazer parar. Deu dois passos depois do tronco...deu mais três passos rápidos, e tornou a correr. Sua velocidade a fez ter mais vontade de chegar à frente, de estar mais perto daquilo que seu inconsciente a fizera ter tanta pressa de encontrar. Os olhos vivos, de longe, já conseguia perceber algo próximo. O ar estava ficando pouco. Seus lábios entreabertos retratavam o cansaço, porém nunca a desistência. Ela ia chegando mais perto. E a cada passo corrido, uma pressão intensa acumulava-se em sua garganta. Lhe faltava muito oxigênio. Mas não podia parar. Não agora. Em milésimos de segundos, um flash back a fazia levemente lembrar um rosto e até um pouco o cheiro. Um ótimo odor. Corria com urgência. Mais uma memória contornou sua mente. Um olhar, os fios de cabelo da franja comprida dele colidindo em seu rosto. Quando se deu conta, estava a três passos do seu destino. Não havia mais floresta por perto. Nem árvores, nem gravetos, nenhuma pedra no caminho. O nó em sua garganta intensificava as batidas de seu coração. O medo agora não era de perder fôlego ou sangue. Era o de chegar perto. Foi aos poucos tentando soltar o ar...Não sabia o por quê, mas ao mesmo tempo em que o tal vazio ia sumindo, algo maior ia tomando-lhe a consciência. Ela chegou finalmente ao seu paradeiro. Suas memórias estavam ali agora, finalmente esclarecidas. Acabadas. Aniquiladas. Pois aquilo que tanto buscou de volta, estava ali, em sua frente, sem vida, no chão. Sua escuridão interna e sua tristeza eram maior do que qualquer dor naquele momento. Com coragem e muita aflição, ajoelhou-se ao lado dele. Tocou suas mãos frias levando-as ao seu rosto. Que conforto aquilo lhe trazia. Encostou levemente o ouvido em seu tórax, uma tentativa de ouvir seu coração. O ar ficava mais nebuloso para ela e o oxigênio prendia sua pulsação. Como pôde passar esse tempo todo procurando por algo que agora a deixava? Por que teria que ser assim? Já não há mais sinais vitais, a pulsação é nula...E nada o traria de volta. Ela então voltou-se para a face pálida de sua alma-gêmea, tentando recobrar o ar e toda pressão interior que a tomava. Passou os dedos em seu rosto, tocou sua franja.Os olhos cor de mel que ela se encantara um dia, agora não brilhavam mais. Lembrou-se do quanto gostava disso...Queria gritar, mas não havia forças. Engoliu o desespero, deixando escorrer obscuramente de seu olhar, a tão aprisionada lágrima. Recostou-se delicadamente ao rosto gélido de sua metade e sentiu por uma última vez seus lábios. Um último beijo. A despedida. E com os olhos semi-cerrados, a última coisa que consegue ver é a fina chuva caindo sobre o rosto de seu amado. Seu tudo. Sua vida. Assim sua vida se foi...Ela perde os sentidos. O adeus definitivo.



Uma música estrondosamente toca alto. Ela acorda. E se depara com os belos olhos cor de mel brilhando bem vivos em sua frente, em sua cama. Abraça-o forte. O corpo quente. A música era só o seu celular despertando...

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